A dura tarefa de economizar dinheiro viajando_parte 2

Onde você mora tem um quarto de hóspedes? Ou uma cama extra no seu próprio quarto? Tem um sofá aconchegante em que seja possível dormir? Quem sabe um espacinho pela casa onde dá pra colocar um colchão? Você deve ter respondido sim a pelo menos uma dessas perguntas. Agora, o X da questão: Receberia pra dormir em sua casa durante dias uma pessoa que você nunca viu pessoalmente, que não sabe nada a respeito, de outro país, que fala pouco ou nada do seu idioma? Daria uma cópia da sua chave, dividiria seu  banheiro, comeria com ela à mesa, deixaria que esse total estranho se envolvesse na sua e na vida de sua família?

Se respondeu “Não, credo, Deusquemelivre” não fique constrangido; eu mesma não receberia, exceto se fosse algum amigo de amigo. Se respondeu “Sim, por que não?”, você faz parte de um grupo não mais tão raro de pessoas viajantes, com personalidade muito livre, aventureira, ansiosas por compartilhar o que tem com todo mundo em troca de cultura e alguns aprendizados. 

Mas aonde eu quero chegar com tudo isso? 

Eu já disse aqui antes, não é fácil viajar sozinho e com grana contada. Às vezes, você sente falta de alguém pra sair ou com quem dar um tempo na correria e jogar conversa fora, ou até mesmo alguém que tire fotos suas – depois de algum tempo até selfie enjoa. E também tem hora que a necessidade fala mais alto e você precisa se virar pra conseguir poupar o máximo de dinheiro possível. Em ambos os casos vale tudo: trabalhar em troca de moradia e uma ou duas refeições e conviver com novas e diferentes pessoas, ou pedir para se instalar num colchão ou sofá de um completo estranho, de quem você não sabe nada a respeito. 

Couch Surfing

A primeira vez que ouvi falar da existência de um grupo no qual pessoas de vários lugares do mundo ofereciam estadia de graça para turistas imaginei uma grande comunidade hippie, de gente estilo Legalize vivendo num camping e compartilhando barracas. Pensei: Creindeuspai. Não, Roberta! Isso não!

É CLARO QUE NÃO ERA BEM ISSO DO QUE SE TRATAVA A TAL COMUNIDADE. E é claro que acabei me envolvendo nisso também.

(-Mãe, foi mal.)

Primeira tentativa

Era meados de julho de 2017 e eu estava na Bélgica, após um período razoável de trabalho colaborativo. De malas prontas, comecei a traçar uma nova rota para a fase seguinte do mochilão. Optei por Amsterdã, pela proximidade e pela logística de ir na sequência para Alemanha. Óbvio que deixei pra planejar tudo na véspera; era uma semana de feriado prolongado na Holanda, com a super famosa Parada Gay. A cidade  parecia estar tomada e os poucos hostels que não estavam lotados, haviam aumentado os preços em duas, três vezes. Um quarto compartilhado com 6 pessoas costuma cobrar por volta de 25 euros, o que já é caro, mas de se esperar, afinal, estamos falando de Amsterdã, a cidade jovem e atraente das vitrines onde stripers dançam para os pedestres a preços módicos, onde um milhão de rótulos da bebida absinto são vendidos a preços módicos, onde um zilhão de drogas lícitas são vendidas a preços módicos. A única coisa que não tem preço módico é um lugar decente pra dormir. E digo decente porque, segundo viajantes que conheci, você pode se dar realmente muito mal se quiser economizar nessa parte, alugando quartos compartilhados com traficantes, garotas de programa no exercício da função, lugares infestados de insetos, enfim, o verdadeiro dedo no O e gritaria. :s

Portanto, naquela semana em Amsterdã um lugar decente estava custando por volta de 100 euros a noite e um lugar razoázel com alguns insetos, por volta de 50 euros. Total fora da minha realidade.  Foi aí que ouvi pela primeira vez o termo Couch Surfing, o aplicativo idôneo que reúne aquela comunidade que não é hippie, mas é muito alto astral, que compartilha sua casa e seu sofá com turistas do mundo todo, sem cobrar nada, apenas pela troca de cultura e alguns momentos de lazer.

Com ajuda dos amigos, fiz meu cadastro com nome completo e muitas fotos; expliquei de onde era, pra onde estava indo, quais eram meus objetivos e hobbies, por onde havia passado. Respondi a todas às questões na intenção de deixar o cadastro 100 por cento completo, mas duas coisas ainda faltariam: referências e perfil verificado. Eu explico:

1-Parte do cadastro é composto por referências dos seus amigos, que também são cadastrados e podem escrever o quanto você é legal, simpático e limpo, e também por referências de pessoas que já te hospedaram, os anfitriões do site, que podem dizer o quanto você é legal, simpático e limpo. Ou seja, conseguir o primeiro é aquela vaga de estágio em que pedem experiência anterior- WTF?

2-Fazer parte do site é gratuito, todavia, tanto para o anfitrião quanto para o viajante que quer ser “encarado” como de confiança mesmo, existe a categoria Verificado: você deve pagar um X pre-estipulado para a plataforma e enviar cópias dos seus documentos. Na teoria, isso reforça que você não tem nada a esconder e que não oferece nenhum perigo a quem quer que seja. Na prática, acredito eu que enviando os documentos é mais fácil a polícia te achar se você fizer algo errado.

Eu não paguei.  Fiquei na esperança de alguém me aceitar sem a tal verificação e sem referências. Depois de escrever algumas mensagens ainda meio incrédula para anfitriões localizados em Amsterdã ou perto dela e ser recusada em todas, desisti. Acabei indo direto pra Alemanha.

Segunda tentativa

Já na Alemanha, na cidade de Keulen, que significa ‘Colônia’ em português, e mais habituada com o aplicativo CoachSurfing, enviei dezenas de mensagens para anfitriões na cidade de Berlim, aptos a receber hóspedes para o próximo final de semana. Não se tratava mais de economizar, Berlim não é uma cidade cara; eu realmente queria tentar algo diferente de hostel. Eu amo Berlim, aquela seria minha segunda vez na cidade. Ela é o reduto da música eletrônica e as baladas undergrounds de lá são consideradas as melhores do mundo – seria legal ter alguém pra sair a noite.

Tentando um sofá pra dormir, continuei minha busca. Alguns anfitriões nem respondem, já recusam direto, sabe-se lá o porquê. Alguns, sem disponibilidade, recusam mas agradecem a mensagem e desejam boa sorte.  

 

Muitas recusas depois, de manhã cedinho, um rapaz respondeu que sim, ele estava aceitando hóspedes para aquele final de semana. 

 

Depois dessa mensagem ele passou o número de celular e avisou que só funcionava para mensagens, não para telefonar. Passamos a nos falar por Whatsapp; eu chegaria tarde da noite, naquele mesmo dia. Fui de Keulen a Berlim por carona compartilhada, mais um jeito de economizar nas viagens e a pauta do próximo post (não perca, isso pode mudar sua vida mesmo aqui no Brasil). Durante o percurso, que deveria ser de aproximadamente 5 horas, pegamos um trânsito infernal. Fiquei muito preocupada com o horário, afinal F. estaria à minha espera. Mantive contato com ele e avisei sobre o atraso; ele pareceu não se importar. Foram mais de 3 horas parada no congestionamento. Durante esse tempo, F. e eu trocamos um pouco de ideia. Ele perguntou o porquê eu passaria os próximos dias em Berlim e quais eram meus planos. Fiquei feliz porque ele parecia ser jovem e era muito comum a interação do anfitrião com o hóspede- era o que eu tinha lido.

Não tenho mais essa conversa do Whatsapp. Juro pra você que se um dia tivesse imaginado que escreveria sobre isso, teria guardado. Mas eu me lembro, palavra por palavra:

F: “Estava vendo suas fotos, você tem viajado bastante.”

Roberta: “Sim, há algum tempo.”

F: “E vi você com algum tipo de kimono também. Você luta?”

Roberta: “Sim, há 14 anos. Aquela foto foi logo depois do meu exame para Faixa Preta Terceiro Dan, comemorando.”  

F: “Uau, Faixa Preta!!! Então, você sabe lutar bem?!”

Roberta: “Claro, lutar e me defender.”

5 MINUTOS DEPOIS DO SILÊNCIO, o sinal do aplicativo apitou:

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Ao mesmo tempo que chegava uma mensagem no Whats:

“Roberta, sinto muito, mas reconsiderei. Não vai ser uma boa ideia receber você.”

E fui bloqueada.

(GARGALHADAS NERVOSAS) 

O cara não estava com boas intenções e quando descobriu que eu poderia meter o pé na cara dele, voltou atrás. Simples.

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Esta Foto salvou a minha pele? Será? O que você acha?

O problema é que eu desembarcaria em Berlim 3 horas mais tarde do que imaginei, no meio de uma tempestade e, por causa desse idiota tarado, não tinha reservado hostel pra ficar. Geralmente faço isso pelo celular mesmo, mas como dita a Lei de Murph, só restava uns 5% de bateria. Não daria pra reservar nada à distância, teria que ir de porta em porta, com a mala nas costas. 

Quase no ponto de desembarque, já em Berlim, comentei com o pessoal que estava no carro sobre minha situação e uma das passageiras que estava no último banco da van, cuja a cara eu nem conseguia ver, disse que eu poderia checar no hostel onde ela havia reservado, que talvez tivesse vaga. Sem celular e sem outra escolha, fui com ela e não é que deu tudo certo?!  Havia vaga no hostel, ele era ótimo, custava absurdamente barato, e era muito bem localizado. De quebra, ainda ganhei uma grande colega: Rocio, a passageira que durante a viagem de 8 horas não tinha sequer aberto a boca no carro, era uma argentina entusiasmada, divertida e amável que foi comigo para todos os lugares, de dia e de noite.

Terceira tentativa

Não acho que o que aconteceu com aquele anfitrião bocó-alemão resume o Coach Surfing de maneira alguma. Além do que não é só a procura de hospedagem que as pessoas cadastradas no site estão. Rola marcar balada, festa, pessoas pedindo dicas de passeio ao povo local, dicas de guia, algumas informações sobre o idioma nativo etc.  Acho que a maioria é muito bem intencionada e “pra frente”, mas assim como em todos os lugares, há os maus elementos. Então, a dica é sempre enviar convites para anfitriões verificados, os “pagantes”, com muitas referências particulares de amigos e de viajantes, que já tenham hospedado muita gente, melhor ainda são os que oferecem quarto de hóspedes, os que moram com esposa e filhos. Ou mesmo, se preferir escolher somente mulheres pra te receber. Mas o principal é checar tudo com calma e com tempo. Quando não se tem escolha, a tendência é aceitarmos qualquer coisa. Isso sim é perigoso. 

Tentei novamente o aplicativo no final da viagem, muitos meses depois, quando me restava passar apenas pela Eslovênia, Austria e Suíça. Na Eslovênia, já estava tão de saco cheio que escrevi para o anfitrião que não sabia o que estava fazendo errado, pois ninguém me aceitava. (risos). Ele também recusou (mais risos), mas disse que era uma pena e pediu pra eu não desistir.

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Você não fez nada errado, Roberta. Não desista!

Na Áustria, coincidentemente, fui convidada por um casal incrível que conheci na Espanha para passar a semana com eles, o que foi maravilhoso.

Dias antes de ir pra Suíça, finalmente consegui me hospedar através do CoachSurfing, com dois irmãos albaneses que residem em Zurique, minha última cidade antes de voltar ao Brasil, e minha última experiência como viajante na Europa, até que eu faça meu próximo mochilão. 😉 

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Finalmente!

E no final, valeu?

E agora, você é quem me pergunta: Roberta, valeu a pena, era o que você esperava?

Eu te respondo sim e não.

Sim porque, financeiramente falando, me deu uma ajuda monstra, não vou ser hipócrita de negar. Meu avião sairia de Zurique, que é um dos lugares mais caros da Terra, dali a 3 noites; o hostel mais barato que consultei custava 50 euros, portanto sim, economizei muito, mas além disso, tive a chance de conhecer um outro lado do viajante. Aquele que mesmo quando está em casa, viaja através dos outros. Os irmãos albaneses sentaram comigo no sofá e esmiuçaram cada parte da minha viagem, sorriram nos momentos felizes que eu contei, se comoveram nos tristes. Compartilharam sua rotina, seu café da manhã comigo e provaram do almoço que fiz como agradecimento pela hospedagem. Contaram dos perrengues com alguns hóspedes do aplicativo que eles aceitaram- o que me mostrou que o anfitrião também tem de se manter alerta. Me levaram para conhecer a balada top da cidade e tiveram a delicadeza e generosidade de pagar a minha entrada na festa dizendo: Zurique é muito cara, é seu bota fora, aproveite! Nunca vou esquecer,  é muito desapego. Tudo isso me deu uma grande lição.

E não porque, quando se viaja, o pouco torna-se muito. Coisas como preservar a intimidade e os planos, manter os horários como a gente quer, as manias radicais que se transformam em rituais quase sagrados como lacrar cada fresta da porta e janela para abafar ruídos e claridade na hora de dormir, ter a divina sensação de tomar um banho longo até sair tonto e enrugado… Pequenas coisas que são partes da nossa vida como viajantes e que conquistamos e vivemos muitas vezes na plenitude da solidão. Não há dinheiro no mundo que pode pagar o ir e vir que nos faz sentir livres. Por isso, decidi ser uma viajante solitária, pra trilhar o caminho sabendo que a mais valiosa de todas as companhias deve ser a minha própria. 

Até! ❤

 

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RÁÁ! Ganhei minha primeira referência. Agora meu perfil está completo. 😉

 

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