A dura tarefa de economizar dinheiro viajando_parte 3

Meses atrás, uma matéria repercutiu em todos os canais de TV, jornais e mídias sociais: o desaparecimento de uma jovem que havia oferecido carona compartilhada num grupo de Whatsapp, para ir de São Paulo à cidade onde morava seu namorado. O caronista não pagaria passagem, apenas dividiria com ela o combustível daquele trecho, o que seria um negócio bom para ambos. O último registro do automóvel é das câmeras do pedágio por onde ele passou. O namorado ficou à espera, a moça nunca chegou.

Dias depois, um amigo meu postou um comentário dizendo que o brasileiro não está pronto para oferecer carona a um desconhecido com a finalidade de reduzir gastos de combustível. Que a malandragem “latina” sempre vai enxergar alguma oportunidade pra se dar bem, seja roubando os pertences da pessoa, o carro ou fazendo coisa muito pior. Que coexistimos com o medo e que certas coisas nunca vão mudar: não devemos falar com estranhos.

Eu me recuso a acreditar.

Cruzando a Espanha

A Espanha foi meu primeiro destino depois que saí de Dublin. Havia arranjado um trabalho colaborativo de 15 dias em um projeto gastronômico na região da Galícia – do qual eu vou falar mais pra frente, mas já adianto que foi medonho. Muita coisa aconteceu durante esse período de voluntariado que mudou meu plano inicial. Tive que tomar algumas decisões meio na correria (ah vá!), mas me adaptei bem e no final, felizmente, consegui cumprir o que queria: vivi 3 meses e 10 dias na Espanha, conheci mais de 15 cidades, pratiquei o idioma, realizei um grande sonho.

E mais! Atravessei o país de Norte a Sul… de carona.

Bla Bla Car

Era março, meu aniversário já havia passado. Eu estava numa cidade bem pequena chamada Utiel, realizando um outro trabalho colaborativo e já me preparando para mais um na região do Extremo Sul, na linda cidade de Málaga, que ficava a aproximadamente 8 horas de ônibus. Diariamente, buscava os melhores preços nas passagens, afinal uma viagem longa como essa certamente não seria barata. Meu patrão Eduardo ficou surpreso com o preço do ônibus e consultou quanto seria para ir até Málaga de carro.
“Mas, Eduardo… eu não tenho carro. E tampouco posso alugar um!”
“Eu sei disso, mas não é você que vai dirigir. Você vai de carona”

???

E foi aí que minha vida durante a viagem toda mudou! Eduardo me apresentou ao site de compartilhamento de carona chamado Bla Bla Car. Ele acessou a versão Espanhola, enquanto eu só observava sem entender nada. Por um momento achei que era carona tipo turística, como se fosse excursão. Nada disso.
tela 1
O Bla Bla Car é um aplicativo onde você se cadastra como motorista, no caso daqueles que têm carro e estão oferecendo carona, como passageiro ou como ambos. Serve para pessoas que estão se deslocando para um lugar pela primeira vez ou corriqueiramente, serve para aqueles motoristas que diariamente viajam para alguma cidade para trabalhar ou que retornam para suas casas no final de semana etc. O intuito é um só: economizar e ir mais rápido. Para cada kilometragem é oferecido um piso e um teto de cobrança, então, não tem como o motorista exagerar no preço, ou como colocá-lo suuper barato. Passageiros e motoristas destacam no cadastro suas preferências de viagem indicando se são fumantes ou não, se aceitam viajar com animais de estimação ou não, se gostam ou não gostam de música no carro etc. E todos recebem avaliações para as caronas que pegaram ou que deram, assim temos como saber se a pessoa dirige bem, se é educada, simpática, pontual, essas coisas que nos dão certa “confiança”. Depois de finalizar seu perfil, você já pode fazer a busca pela cidade que deseja ir, na data e período que precisa. Daí é só checar os motoristas, qual avaliação e recomendações eles têm, quanto custa a viagem, de onde parte e em que ponto desembarca. Você tem a possibilidade de escrever aos condutores mantendo um diálogo pelo chat- só não pode passar seu endereço nem telefone. Quando o site identifica que passageiro e motorista estão tentando burlar as regras do app, para negociar “por fora”, ele bloqueia as mensagens. Depois que você se acerta com o motorista pelo chat, é só clicar para pagar. O dinheiro sai da sua conta através do cartão de crédito cadastrado e o motorista recebe a informação de que você pagou. Somente nessa hora, o número de telefone de ambos fica disponível para uma conversa direta. É bem explicado, simples e confiável.
Depois de ser motivada por Eduardo a fazer meu cadastro, acionei um motorista que estava indo pra Málaga no mesmo dia e horário que eu queria. A viagem demoraria duas horas a menos e me custaria metade do preço da passagem de ônibus.
Honestamente? Nem pensei duas vezes.

Roberta, I don´t hablo english

O primeiro motorista que acionei no Bla Bla Car chamava-se David. A nota dele era ótima no site, parecia um bom motorista e tinha registrado um número alto de caronas. No dia e horário agendados, Eduardo me levou até o ponto de encontro. Dois minutos depois, identifiquei David encostado num carro, segurando uma placa que dizia:

ROBERTA, SOY DAVID

Eu estava tensa; sabia que estava porque não parava de suar. Não era nervoso por estar a beira de viajar sozinha por 6 horas com um desconhecido. Mas por outros motivos… Primeiro, eu sou péssima pra andar de carro, avião, barco, jegue sem tomar um milhão de Dramins. Eu sou daquelas que está bem neste minuto e no próximo, fica prestes a colocar os orgãos pra fora. Quando estou viajando de ônibus e sozinha, tomo o que for preciso pra dormir quase que por toda a viagem. Todavia, no cadastro de David estava escrito “Gosto de conversar ao longo do trajeto”. Eu TAMBÉM tinha colocado que gostava de conversar. Portanto, eu teria que ficar acordada.
E havia também outra coisa me perturbando…
Eu havia escrito na mensagem privada que meu espanhol ainda era meio iniciante, David disse que o inglês dele era básico. 6 horas de viagem seria como um tour pela Torre de Babel. Assim que eu entrei no carro, David disse:
“Entonces, I don’t speak english muy bien.”
Percebi, então, que meu espanhol era bem melhor que o inglês dele e teria que servir para 6 horas; nem que tivéssemos que cantar Shakira e Rick Martin até o momento do desembarque.

David, por Dios, stop the coche!!!

Ele era uma pessoa muito educada e legal. Fomos conversando sobre nossas vidas, o trabalho dele, a minha viagem. Contei sobre os meus dois voluntariados na Espanha e ele contou sobre como era morar separado da esposa. Era inacreditável que meu espanhol estivesse tão bom, eu nem sabia que era capaz de manter tanto diálogo. David se mostrou aliviado; disse que na noite anterior, mal tinha dormido de pensar que teria que falar em inglês para entreter a viagem tão longa. -“Jura, David? Mas, que bobagem.” (risos)
Estava um calor miserável, parávamos de tempo em tempo pra esticar as pernas e tomar um ar, e também paramos para almoçar. Lembro de ter evitado o que sempre evito para não ter nenhum treco quando voltássemos para a estrada: alimentos gordurosos, leite, água em excesso, molhos em geral. Optei por almoçar um lanche natural, o que eles chamam de bocadillo, e tomar um café. Enquanto eu terminava o sanduíche, David passou um tempo considerável no banheiro do posto. Quando voltou, notei que ele estava de banho tomado. Fiquei com inveja, fui no banheiro, lavei o rosto e troquei a calça jeans por um shorts, afinal, David não era um maníaco com quem eu teria mais que me preocupar.
Voltamos à estrada; a essa altura faltavam cerca de duas horas para chegarmos. Eu tinha conseguido, afinal! Minha primeira carona compartilhada, um cara legal, estava me sentindo a própria Maria do Bairro falando espanhol pelos cotovelos, sem passar vergonha, sem dormir, tudo perfeito.
Mas algo tinha mudado o cenário, e eu não sabia o que era.
Enquanto David falava sobre a cidade para onde eu estava indo, a beleza das praias, o museu de Picasso, alguma coisa não estava se encaixando. Eu comecei a ficar mais calada, apenas ouvindo e sorrindo. Em minutos me vi verdadeiramente incomodada. Do nada, o ambiente pareceu mais quente. Comecei a me abanar com a mão, e depois com uma revista que estava encaixada do lado da minha porta. Pensei: “Respira de boas, tá tudo bem, nem precisa falar nada.” David agora narrava sobre a cidade espanhola que parecia árabe, com comida árabe, roupa árabe, camelo árabe; e uma onda de calor me invadia por completo. “Controle-se, controle-se”. Abri a janela, desconsiderando o ar condicionado que estava ligado. David nem percebeu porque estava dizendo algo sobre o Marrocos e a invasão francesa, inglesa, portuguesa… “Respira fundo, fica quietinha. Minha Nossa Senhora, como ele fala!”. Eu não podia estar passando mal, afinal havia comido um pão seco com presunto e alface. – Entonces, el flamenco es una… “OK, estou mesmo passando mal. Admita agora e evite o pior.” E foi no meio de toda essa falação e pensamentos que o vento pela janela trouxe direto pro meu nariz um cheiro de perfume fortíssimo, enjoativo, que vinha de David e que não estava nele antes!!! “O homem foi tomar banho e aproveitou para se banhar de desodorante, é isso mesmo???” O calor dentro do carro nessa hora se tornou insuportável e quando pensei em pegar a garrafinha de água para jogar na cara toda, a droga da saliva quente de quem vai pôr tudo pra fora finalmente chegou à boca. Não havia mais tempo.

” DAVID, STOP THE CAR!”
“Perdon?”

“DIOS, STOP THE COCHE!!!”

E foi assim que um Rexona e um perfume barato acabaram com minha fluência e dignidade.

Tudo isso aconteceu em uns 10 minutos aproximadamente, minutos que pareceram uma eternidade. Enquanto estava com metade do corpo pra fora do carro parado no acostamento, David me segurava pelo shorts pra eu não cair de cabeça. Depois daí, só lembro de que o estranho, o desconhecido, o condutor de quem eu não sabia quase nada e a quem eu estava querendo impressionar com meu portunhol, me ajudou a lavar o rosto e gentilmente trocou a camiseta por uma sem perfume. Sou eternamente grata pelas duas coisas, mas ainda assim, quis matá-lo com todo o meu coração.
Depois de ter pedido desculpas em todos os idiomas possíveis, com a vergonha me pesando 5 toneladas nos ombros, voltamos para a estrada.
Demorou cerca de 5 minutos até que David rompesse o silêncio dentro do carro e estourasse de rir. Em meio às risadas só conseguia ouvir ele dizer: QUE RICO, ROBERTA! ESTUPENDO.
Of course que sí. Bom que alguém se divertiu!

3 bla
Minha avaliação sobre David. Eu deveria ter dito que ele ama perfume? Náá, acho que não.
4 bl
Avaliação de David sobre mim. Não falei que ele nem se importou? 😉

Brincadeiras à parte, me tornei adepta ao Bla bla Car. Durante minha viagem, paguei por mais de 15 caronas compartilhadas. Todas com condutores homens que sempre me trataram com total respeito. Foram experiências ótimas e as que foram inesquecíveis, como a de David, ainda vou relatar aqui.
Não, eu não sou nem maluca nem ingênua, eu sou alguém que confia no próximo. Acreditar no ser humano precisa ser parte da vida. Caso contrário, acreditar na própria vida acabará por ser impossível.

2 bla
Nível Expert em caronas!

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4 comentários em “A dura tarefa de economizar dinheiro viajando_parte 3

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  1. Muito bom esse App, eu usei em Portugal, foi uma viagem com emoção. Era para ser até 4 pessoas e tinha 5, fui amassada e numa velocidade que variava entre 160 e 180 KM/h. #medo…
    No fim, foi tudo bem, cheguei inteira e, creio eu, que ele chegou sem multa.

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