Já dizia o ditado “No Pain No Gain”

Agora que já contei 3 de minhas minhas próprias experiências em como economizar dinheiro viajando e sanei parte da curiosidade de quem sempre me perguntava como me mantive durante um ano inteiro na Europa sem trabalhar, posso voltar à droga de vida que tinha em Dublin. Depois de ter conseguido ganhar a grana que precisava pra tirar meu “documento de identidade”, de ter sido parada e revistada pela polícia e de ter passado a maior vergonha da minha vida (até aquele momento), continuei trabalhando com o rickshaw. Eu não perdia a esperança de arranjar outro emprego, um emprego “normal” durante o dia, com folga aos domingos e contrato de trabalho e, claro, sem a polícia no pé. Mas, enquanto isso não acontecia, eu precisava pagar as contas. Continuei trabalhando de madrugada, no frio, levando turistas, bêbados e drogados na bike e, vez ou outra, encarando a polícia gritando na minha cara.

Ser motorista de Rick Shaw não é só sentar a bunda no selim da bike e dirigir feito um piloto automático. Isso é fácil e a gorjeta é pouca. Se eu quisesse ganhar o suficiente pra valer o meu esforço de passar por tudo o que eu já descrevi, precisaria ser melhor que o óbvio: interagir com os clientes, descobrir o que os turistas buscavam na cidade; conhecer qual o tipo de música ao vivo tocava nos bares, quanto se pagava de entrada nas danceterias, se as bebidas eram caras ou baratas. Precisava saber qual a faixa de idade da galera que frequentava este ou aquele lugar, onde o público era mais bonito. Tinha até que saber onde os homens conseguiam “se divertir” quando tudo na cidade estava quase fechado. O problema, como você já sabe, é que não fazia nem um mês que eu estava em Dublin. Eu demorava pra chegar nos lugares, não sabia conversar sobre as festas, me perdia quase sempre. Eu não conhecia nada.

Muito trabalho, pouca gorjeta; definitivamente não estava valendo a pena.

Os irmãos de Londres

Era um sábado, por volta de 5 horas da manhã.  Estava parada perto de uma lanchonete, quando fui abordada por dois rapazes. Eles queriam que eu os levasse de volta onde estavam hospedados. Os dois subiram na bike e me deram o nome do hotel. Eu conhecia o nome, mas não tinha bem certeza de onde era. O celular já estava morto há horas, mas eu me lembrava que era meio seguir reto à direita. Então, eu fui.

Nem sei quanto tempo pedalei, mas o fato é que não era pra direita, e sim pra esquerda. Me vi dirigindo a bike por umas ruas que eu nunca estivera, sem telefone e sem a menor ideia de onde era o tal hotel, com um dos caras semi desmaiado e o outro dizendo: “Não é por aqui, você se perdeu.”

Droga, eu estava mesmo completamente perdida. O rapaz que estava falando comigo viu um táxi e pediu pra eu parar a bicicleta. Ambos desceram e o “semi desmaiado” disse, apontando o dedo na minha cara, que eu não deveria ter aceito a se não sabia onde era. Como ele estava falando relativamente alto e era um lugar meio escuro, um moço do outro lado da rua atravessou correndo e me perguntou se estava tudo bem, se eu precisava de ajuda. Eu respondi que estava tudo bem – na verdade, estava tão chateada por aquilo ter acontecido, nem sei dizer se e o que respondi. Só sei que o rapaz que cruzou a rua sentou na bike e pediu pra eu levá-lo até o Centro. O passageiro que identificou o táxi jogou umas moedas na minha mão, e puxou o semi desmaiado pelo braço enquanto ele gritava:

“Não confie nela, ela mente. Ela vai perder você também.”

Droga, que vergonha. 

Levei o moço para o Centro pelo mesmo caminho, querendo chorar de raiva. Chegando lá ele perguntou o que tinha acontecido com os dois ingleses. Eu contei a verdade: “Não sei como, mas, me perdi.”

“Quem nunca se perdeu nesta vida? Caminhos se aprendem.” O moço me disse sorrindo.

Ele me pagou mais que o dobro do que pedi. Disse que parte era para pagar a corrida que os outros não me pagaram. 

Até hoje não gosto de lembrar dessa história. Me incomoda pensar nos dois rapazes, em Londres, contando sobre a viagem que fizeram para Dublin e debochando  da louca que não sabia onde estava. E pior! O hotel onde eles haviam se hospedado é o mais chique e caro de Dublin. Além da vergonha e raiva que passei, ainda perdi um bom dinheiro. 

No meio de tudo isso, ao menos uma coisa boa houve: aquele moço foi o primeiro cliente que fez algo por mim durante o trabalho. Mais do que pagar em dobro, ele atravessou a rua pra me “defender”, aceitou ir comigo enquanto o outro gritava que eu não era de confiança e, com suas palavras, me deu ânimo e motivação. “- Caminhos se aprendem”- ele havia dito. Eu aprenderia tudo que fosse necessário pra nunca mais deixar quem confiou em mim na mão. 

De perdida a expert

Na segunda-feira, comprei um caderno de bolso.  Todos os dias eu voltava a pé da escola para minha casa, eram 40 minutos. Comecei a fazer um caminho diferente por vez e a anotar os nomes de restaurantes e bares. Como era de dia, eu entrava e sondava sobre cardápio, preços, horários de funcionamento etc. Em casa, eu acessava sites de busca por hostels e anotava o nome e endereço de alguns bons e de hotéis 3, 4, 5 estrelas. Com os amigos de escola e trabalho, estava sempre buscando informações sobre as baladas, como eram e quais eram as melhores e as piores. Com os rapazes que trabalhavam distribuindo folhetos dos clubes de dança estava sempre perguntando que tipo de mulher trabalhava lá, o que era permitido, proibido, que horas fechava, com que roupa se podia entrar, tudo que era necessário para vender aos clientes. Passei a manter contato com os seguranças dos bares, às vezes descia da bike, apertava a mão deles, me apresentava. Em pouco tempo, já estava pedindo pra entrar e usar o banheiro. Assim eu via como era o ambiente lá dentro, o tipo de música, a idade do público. Pedi para me incluirem em todos os grupos dos motoristas de rick shaw. Nos grupos, eu ficava sabendo sobre o que estava rolando na noite durante o trabalho, principalmente em relação a polícia.

Juntando todas essas informações, meu trabalho começou a melhorar. Meu celular era uma droga, tinha uma bateria muito curta. Quando ela morria, eu não podia mais contar com o Google Maps; precisava saber de cor o caminho ou me sentir à vontade pra pedir ajuda aos outros motoristas, durante o trajeto. Não é tão simples como parece. Muitos não gostavam de responder, ou por egoísmo mesmo ou por estarem ocupados. Com o grupo no Whats passei a ser mais conhecida… e a ser mais cara de pau também. 

Uma semana depois daquela história péssima com os dois ingleses, fui trabalhar mais confiante, com meu caderninho no bolso do casaco. 

Estava descendo uma rua perto do centro quando 3 mulheres gritaram para eu parar. Eram amigas da Escócia que estavam em Dublin para comemorar o aniversário de uma delas. Me pediram para levá-las até um bar- na verdade, pediram por um bar que EU gostasse, me pediram uma indicação! Me lembro de ter ficado feliz em saber que eu  realmente tinha algo bom pra indicar. Quando desceram da bike não me perguntaram quanto era, me deram duas notas de 20 libras, o que era muito mais do que eu cobraria. Elas entraram no bar e eu fiquei na porta, sorrindo, radiante. 10 minutos depois, eu ainda estava lá, na porta do bar, oferecendo meus serviços quando as 3 mulheres saíram. Fiquei gelada. Pensei: 

“Pronto. Ou elas saíram pra fumar ou não gostaram do bar.”

Estava ainda meio em choque tentando inventar uma desculpa caso uma delas me xingasse, quando a que estava com uma coroa de princesa na cabeça me viu e gritou:

“OH ROBERTA, É VOCÊ!”

E vieram na minha direção, já subindo na bike.

“MEU DEUS”- pensei. “ELAS ODIARAM MESMO. MAL ENTRARAM E JÁ ESTÃO INDO EMBORA!”

Me senti na obrigação, quase no dever de perguntar o que tinha acontecido, se elas não tinham gostaram do bar. 

“Amamos, é maravilhoso. Mas estamos morrendo de fome, precisamos comer.”- Responderam.

Deus seja louvado. Que alívio. (risos)

Parei com elas em uma das poucas lanchonetes abertas na madrugada. Quando desceram, colocaram mais 40 libras na minha mão e pediram pra eu esperar, se fosse possível. Decidi só esperar, se não aparecesse algo melhor. Depois de um tempo curto, lá vinham elas gritando meu nome outra vez e subindo na bicicleta. 

“Roberta, precisamos de um caixa automático 24 horas.”

Eu sabia exatamente onde tinha um, seguro e próximo dali. Depois do banco, pediram por uma danceteria, uma que EU gostava. Na porta, pagaram a ida ao banco e mais a ida até a danceteria. Aquelas 3 mulheres que eu pude ajudar, a quem esperei, com quem me preocupei me pagaram um total de 150 libras em pouco mais de uma hora. Fui pra casa feliz. Sabia que, ao contrário do que tinha acontecido há uma semana, desta vez, eu pude realmente ser útil e fazer um bom trabalho. 

Tive muitos passageiros, homens e mulheres, que me pagaram muito bem pelas caronas que dei, e tenho que dizer que eu cobrava caro! Recebia gorjetas que nem eu mesma acreditava. Identifiquei um público para trabalhar que sabia dar valor a tudo que eu sabia: os turistas. Alguns colegas me chamavam de Guia Turístico porque, com o tempo, passei a recomendar restaurantes, os melhores passeios para casal, para família, parques, as melhores catedrais e museus. 

E fui mais longe. Eu decorei a bike com luzes e flores. Eu usei orelhinhas na Páscoa e dei chocolate para os passageiros depois da corrida; eu usei fantasias no halloween e tinha “gostosuras” dentro de uma abóbora de plástico para distribuir, me lembro de que até pra Polícia eu dei balas. (risos). Comprei um talão de recibos; se o cliente precisava de um para solicitar reembolso na empresa, eu dava; se ele precisava do recibo escaneado e por email, eu enviava. Se o turista queria um tour de rick shaw no dia seguinte, eu mantinha contato, e ia buscá-lo mesmo durante o dia. Se as passageiras precisavam retocar o make-up antes de entrar na balada eu tinha um estojo com batom, corretivo, blush e espelho acessível pra elas; se o passageiro queria encontrar uma companhia em algum site adulto, eu acessava o site pelo meu telefone, conversava com a moça, combinava o hotel e levava ele lá.

Enfim, eu aprendi a trabalhar. (risos)

Tenho muitas histórias incríveis com passageiros que levei na bike; umas emocionantes, outras hilárias, algumas ruins. As melhores delas vou postar por aqui. Comecei com essas duas porque foram as que marcaram o fim de uma fase meio bad e o início de uma mais próspera. Não vou dizer pra você que nunca mais me perdi. Claro que sim, aconteceu outras vezes, mas eu mesma debochei de mim e parei o táxi mais próximo.

Muitas vezes não sabemos por onde começar a melhorar, não sabemos por onde começar a mudar. Mas se todos os caminhos se aprendem, é andando por aí que a gente descobre como.

🙂 

 

    

 

 

   

 

 

  

 

 

 

Anúncios

2 comentários em “Já dizia o ditado “No Pain No Gain”

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

Crie um novo site no WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: