Perseguida por um policial na Irlanda_parte 1

A festa mais comemorada na Irlanda é o Dia de São Patrício, em inglês St. Patrick’s Day. É uma celebração de cunho religioso, que marca o dia da morte do santo Patrício, padroeiro da Irlanda. Os países que falam inglês também festejam a data e, aqui no Brasil, muitos bares fazem alguma programação especial pra comemorar. E qual é mesmo a nossa relação com o Padroeiro da Irlanda? Óbvio que nenhuma, é só um motivo pra encher a cara. E, cá entre nós, lá é o mesmo. Aposto 2 dedos da mão que a maioria nem se lembra do real motivo da festa. O fato é que o St. Patricks é celebrado no dia 17 de março, o dia do meu aniversário.

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Em Dublin
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Em São Paulo

17 de março de 2016

Na escola não se falava em outra coisa. A maioria dos meus amigos, brasileiros claro, haviam desembarcados na Irlanda poucos meses antes. Todo mundo estava fazendo planos de ver a parada, que na minha cabeça era como um mini carnaval. Eu mesma estava animada, afinal,  meu aniversário era no mesmo dia e a cidade ia bombar com várias festas e gente do mundo todo. Como eu sempre comemorei aniversário, seria literalmente a maior festa que eu já vivi.

Antes, porém, havia o trabalho. Se os colegas da escola estavam malucos com os preparativos, os colegas do trabalho estavam radiantes com a possibilidade de faturar uma pequena fortuna nesse feriado. Como eu já disse, é uma das festas mais celebradas na Europa e como o santo é Irlandês, Dublin recebe turistas com grana, e de todas as partes. Digamos que daria pra ganhar em uma noite, o salário equivalente a uma semana. 

 Planos e desilusão

Assim como 99% da população, fui atrás de uma roupa apropriada pra usar. É fácil se vestir pra sair durante o dia, pular no meio da multidão, se esquentar. Duro é se fantasiar pra trabalhar na madruga, embaixo de garoa. Acabei optando por algo que desse pra usar o casaco: asinhas verdes e saia; não havia muita escolha.

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Comprei minhas primeiras luzes pra enfeitar a bike. Se eu chamasse a atenção, mais chance de obter passageiros eu teria, certo?

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Pois bem, o plano era: trabalhar de sexta pra sábado, a noite mais top, encher o bolso de grana, encontrar a galera da escola no sábado a tarde pra ver a parada, comemorar meu aniversário numa das festas e me dar a noite de folga. Perfeito.

Só que deu tudo errado.

Comecei a trabalhar por volta de 10 horas da noite e as ruas estavam muito cheias. Fazia 3 semanas que eu estava trabalhando com a bike e estava naquele processo de conhecer os lugares, os caminhos etc. Não estava ruim como no começo, mas ainda não estava boa. E por isso, pra mim, aquela sexta-feira estava sendo como outra qualquer. Pelo menos eu, não estava tendo um bom lucro. Quanto mais o tempo passava, mais as ruas lotavam de bêbados, o que pode ser péssimo pro trabalho. Eles fazem você perder tempo com conversa fiada e paquera e os que realmente querem e precisam do táxi, muitas vezes não estão em condições pra dizer onde moram ou onde estão hospedados; no pior cenário, você leva o bêbado e ele simplesmente te deixa falando sozinho na hora que você cobrar, é o famoso bêbado caloteiro esperto e Dublin está repleta deles.

Já eram 4 horas da manhã e eu bem que poderia estar em casa dormindo. Embora não houvesse táxi o suficiente para atender toda aquela procura, a noite não estava saindo como eu esperava, o que mudava meus planos para o dia seguinte. Ao invés de festejar meu aniversário, eu teria que trabalhar para fazer o final de semana realmente compensar.

Já pensando em guardar a bike, fui parada por um casal de turistas que estava hospedado em um hotel, a uns 12 minutos de onde eu estava. Honestamente, eu estava cansada, triste e queria ir pra casa. Cobrei caro a beça, pois sabia que eles não iriam aceitar. Mas o rapaz abriu a carteira, me pagou imediatamente e subiu na bicicleta junto com a namorada.

“Puxa, será que a sorte estava virando?” – Eu pensei.

Com eles na garupa, tomei a esquerda e segui por uma rua muito conhecida, onde estão localizadas quase todas as danceterias. Aquilo estava um caos, quase uma 25 de março no Natal. Desliguei a bike pra poupar bateria e fui seguindo devagar com o trânsito. Depois de alguns metros, o semáforo abriu e eu liguei a bicicleta pra ela pegar velocidade e eu passar. 

Foi então que ouvi um barulho.

Foi meio seco, ao lado da carroceria na bike, como se alguém tivesse dado um soco no capô de um carro ou algo assim. Só então escutei pessoas gritando; não estava bem certa se era comigo. Só tive certeza quando vi um policial correndo pela frente, na direção da minha bicicleta, gritando feito um louco, ao mesmo tempo que parava a bike com as mãos no guidão.

“PARA, PARA!”  

Foi tudo muito rápido, e parte do que eu vou contar não sei em que ordem ocorreu. Não tenho certeza se esqueci ou se bloqueei. O fato é que atropelei um turista, com passageiros na bike e com a polícia olhando. 

Verdades e mentiras

Bem, esse cara estava no meio da rua, não há como negar, com os amigos, pulando e festejando. Ele não apareceu na frente da bike, se não eu o teria visto, mas sim foi atingido pela lateral da bicicleta, por uma pequena parte que serve como degrau para o passageiro descer e subir.

Quando ele gritou e caiu no chão, os amigos bateram as mãos na bike para me avisar e os guardas, do outro lado da rua que viram o tumulto, atravessaram correndo. Um deles, o que parou a bike com as mãos praticamente, era o mesmo que estava com a policial loira desgraçada naquele outro episódio. Daquela vez ele foi meio “benevolente”. Desta vez, parecia o verdadeiro diabo.

Esse oficial me fez descer da bike, assim como o casal de passageiros que estava meio atônito. Mandou eles esperarem, pois eram “testemunhas de um crime”. O outro policial, um senhor com bastante idade, foi até o rapaz atropelado que estava sentado na rua, prestar atendimento. Como eu disse, a ordem dos fatos não me recordo, mas vou contar tudo que me lembro. Enquanto eu estava lá, parada, olhando,nem posso dizer o que passava pela minha cabeça. Acho que estava em choque. Eu queria saber se o rapaz estava bem, mas não conseguia nem vê-lo. Enquanto o oficial mais velho foi até o casal e tomou nota dos dados deles, o outro veio até mim e a partir daí, se eu pudesse adiantar minha passagem, teria voltado pro Brasil no dia seguinte.

“Eu conheço você! Você é aquela idiota que não tinha documento, né?”

Pronto, começou a humilhação. Ele me acusou de ter atropelado o rapaz e tentado fugir. Expliquei que ouvi o barulho e freei, mas que a bicicleta diminui a velocidade até parar, não é algo instantâneo; que não estava tentando fugir, estava é tentando parar. Mas ele não deixava eu falar, mandava eu calar a boca. E ficava repetindo o meu nome de um jeito horroroso, com aquele sotaque irlandês nojento. Nunca meu nome havia soado feio pra mim, até aquele momento.

“Ele quebrou a perna. E você vai ser presa.”

Aí, eu realmente senti o chão indo embora. Eu tinha quebrado a perna do turista, meu Deus do céu.  

Enquanto estava perdida nos meus pensamentos, o policial mandou eu andar reto, pela direita, pra checar se eu estava bêbada. Segundo ele, todos os brasileiros eram bêbados viciados. Eu disse que não tinha bebido nada e ele gritou pra eu obedecer. Obedeci  e andei na linha imaginária. Nessa hora, muita gente que estava olhando começou a rir. Ele disse que o turista iria para o hospital, eu iria pagar por tudo e receberia na minha casa uma intimação. O oficial mais velho se aproximou e começou a anotar os meus dados; foi quando ele perguntou minha data de nascimento.

“17 de março.”- eu respondi.

Ele olhou pra mim, com um semblante indecifrável e repetiu a pergunta: Quando você faz aniversário, meu bem? Eu respondi:

“Hoje.”

E aí, o que era ‘indecifrável’ virou uma nítida expressão de “eu sinto muito, moça”. 

Não parava de pensar que eu deveria estar em casa, com minha família, namorado e amigos festejando, e não lá, naquela situação. Foi quando olhei para a frente, para onde estava o rapaz e seus amigos, e vi eles conversando e… rindo. 

Rindo! Ele estava em pé, com uma cerveja na mão e estava rindo.

Esperei uma brecha, um único momento quando o oficial do inferno foi até o casal de passageiros, que ainda estava lá, e corri na roda dos rapazes pra rapidamente perguntar como ele estava.

“Estou bem, foi só um arranhão, crazy girl.” 

Nessa hora, o policial me viu, me agarrou pelo braço com força suficiente pra quebrá-lo e gritou, quase cuspindo na minha cara:

“O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? ELE É A VÍTIMA, VOCÊ NÃO PODE CONVERSAR COM ELE!”

Eu respondi firme:

“Ele não quebrou a perna, senhor, ele está de pé ali!”

“Você é médica, Roberta? Então, fecha essa boca, antes que eu te prenda agora mesmo.”

Estava tudo bem claro agora. Eu tinha mesmo acertado a perna do menino com a lateral da bike. Ele caiu, todos se assustaram. Mas foi uma pancada, não uma fratura. Não havia crime, mas se dependesse daquele oficial, eu seria indiciada e culpada por lesão corporal e tentativa de fuga. Porque a polícia na Irlanda é medíocre, fascista, preconceituosa, racista, xénofoba e corrupta.

“Roberta, eu trabalho todas as noites. Se você me irritar de novo eu te deporto para o teu país. Você tá me entendendo, Roberta?”- ele repetia.

Nem sei como me lembrei de olhar para o casal que estava agora se retirando, pedir desculpa e estender o dinheiro que eles haviam me dado, pela corrida que não aconteceu. 

Sob ordens estritas de guardar a bicicleta ou ser presa imediatamente caso continuasse trabalhando naquela noite, pedalei direto até a garagem. 

Fui pra casa, entrei no quarto onde fiquei até domingo. Não vi o Saint Patricks acontecer, não vi a parada passar, não comemorei meu aniversário, não trabalhei por dois dias. Passei aquele final de semana considerando desistir do curso e voltar pro Brasil, afinal, as coisas não estavam indo muito bem pra mim.

A campainha tocou e te juro que pensei ser a tal intimação. Mas não era. Era uma encomenda, do Brasil. Um balão com carta, flores e bombons.

 

O presente que meu namorado planejou aqui do Brasil, pra eu receber no dia do meu aniversário lá, me fez cair na real de que não, eu não estava sozinha. Havia gente que me amava muito e que não me deixaria desistir. 

Coloquei uma roupa e fui para um bar onde tomei uma cerveja e comi bolo com sorvete, que até hoje me lembro do gosto. Tudo em minha homenagem, porque o São Patrício, querido, eu quis mesmo que se danasse. Dia 17 de março é MEU DIA.

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O melhor Brownie com sorvete ever. Lembro de ter tirado essa foto pra nunca esquecer de que posso SIM, me levantar.

Na segunda-feira, faltei à escola e visitei um advogado. Se aquele oficial maldito queria guerra, era guerra que ele iria encontrar.

(continua)

 

 

 

 

 

 

 

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