Perseguida por um policial na Irlanda_ parte 2

Depois de passar pelo pior aniversário da minha vida, resolvi tomar uma atitude: não ficaria em Dublin me vitimizando. Ninguém havia me obrigado a me mudar pra Irlanda, assim como ninguém havia me obrigado a trabalhar com o rickshaw, que era um serviço bem mal visto na cidade. Já que a coisa com a polícia tinha degringolado, como contei no último episódio, seria melhor se eu me precavesse descobrindo quais eram meus direitos como estudante imigrante de inglês. 

Faltei no curso e fui buscar por informações. Há um centro de ajuda aos imigrantes que oferece serviços como preparo de currículo, encaminhamento a hospitais e advogados gratuitos. Retirei uma senha para falar com um deles e depois de uma hora esperando, a única coisa que recebi foi “sorry, com esse tipo de problema não podemos nos meter”.

“Esse tipo de problema” seria algo com a polícia envolvida? Provável, afinal, eu estava mesmo é querendo registrar uma reclamação contra aquele oficial maníaco. Descobri que se quisesse mesmo fazer isso, deveria procurar um advogado particular. No centro de informações, me indicaram um que estava a uns 3 km de distância e que não cobrava a primeira visita. Resolvi ligar para marcar uma hora. Ele me atendeu no mesmo dia. 

Conversar com o Dr. Sean foi surpreendemente produtivo. Conversamos por mais de uma hora, expliquei tudo que tinha acontecido, desde o meu primeiro contato com a Garda até a ameaça de prisão que sofri, no sábado anterior. Ele me falou sobre os meus direitos enquanto imigrante e  disse que não é novidade o tratamento abusivo da polícia irlandesa contra “nós”, que já havia recebido e tratado alguns casos assim, mas nunca com um operador de rickshaw, ainda mais mulher. Me disse que eu poderia sim, dar queixa, registrar um boletim de ocorrência alegando abuso de autoridade, assédio etc, mas que ainda teria que conviver com o policial durante o meu trabalho. Me aconselhou dizendo que se minha intenção era continuar na mesma profissão, com a queixa as coisas poderiam piorar; segundo suas experiências anteriores, o policial não ficaria “quieto e na boa” sabendo que eu estava movendo uma ação contra ele.

Como trabalhar sabendo que a qualquer momento, ao dobrar a esquina, poderia encontrá-lo? Ou que 3, 4 horas da manhã eu voltava pra casa sozinha e que o infeliz já tinha meu endereço? 

Antes de tomar uma decisão, pedi um tempo pra refletir e fui pra casa. Ao mesmo tempo que queria registrar o B.O, eu estava com muito medo do que poderia acontecer depois. Aquele homem me apavorava. Seria impossível manter o trabalho com a bike, sentindo tanto medo.

Espalhei a informação sobre o psicopata nos grupos do Rickshaw. Achei que fazendo isso, eu poderia ganhar aliados e também me sentir um pouco mais segura.

Todos os dias chegava em casa, esperando ter recebido alguma notificação da polícia ou multa. A cada batida na porta, tinha certeza de que era a entrega da intimação. Não tinha paz dentro da minha própria casa. Como o advogado disse que isso poderia acontecer em até 6 meses, eu teria que me acostumar à essa sensação.

Quinze dias depois, eu havia retornado minha rotina. Decidi não registrar queixa e manter meu trabalho. Sem ele, era melhor dizer adeus ao curso e tudo mais. Só que agora era questão de honra manter a cabeça erguida. O fracasso do meu aniversário, o fato de ter passado pela data tão triste e derrotada, sem comemorar, sem nada, havia mexido muito comigo. Decidi que faria dar certo e que voltaria a ser a pessoa otimista e pra cima que eu sempre fui no Brasil.

O terceiro encontro

Era início do mês de abril. O clima em Dublin estava melhorando, as chuvas diminuindo e eu estava mais animada com a casa . Já ia completar um mês sobrevivendo à presença de Peter no meu quarto, algumas vezes na semana, o que não era tãão ruim, pois eu chegava de madrugada, quando ele já estava dormindo. E ele saía pra trabalhar, enquanto eu dormia. Mal nos víamos. 

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Finalmente, um pouquinho de sol

No trabalho, as coisas estavam calmas e a cada dia que passava eu pegava mais o jeito com a bike e conhecia mais caminhos. O final de semana continuava sendo os melhores dias pra ganhar, mas algumas vezes em dias comuns, eu também tinha sorte. Quando isso não acontecia, eu voltava pra casa cedo, assistia a um filme e considerava como “noite de folga”. Foi uma quarta-feira como essas, de noite bem fraca de movimento, que estava subindo uma das avenidas para guardar a bike na garagem e resolvi parar na frente de uma lanchonete para cumprimentar um conhecido, também motorista de rickshaw. Durante a conversa, avistamos a viatura da polícia descendo pela outra mão, mas não nos importamos, afinal, não estávamos fazendo nada errado.  Menos de 5 minutos depois, ouvimos alguém gritar, muito alto mesmo, do outro lado da rua. Era um policial e estava fazendo um movimento com as mãos, para que fossemos até ele. Meu amigo foi na frente, e eu ainda estava meio preocupada de ir e deixar as duas bikes sem ninguém; foi quando escutei um berro:

“VOCÊ NÃO, ELA!”

Vi meu amigo voltando e me dizendo com a cara estranha: Ele tá chamando você.

Só quando cruzei a rua, e me aproximei da calçada que reconheci quem era. Estava lá diante de mim, de novo, aquele psicopata, que me cumprimentou me chamando pelo nome. Curiosamente, eu não fiquei com medo. Não tinha feito nada de errado. Mas ele não havia passado na nossa frente, de viatura, estacionado, descido e ido até lá a pé, pra perder a viagem. Então, mais um pesadelo começou:

“Eu lembro de você, Roberta. Você mora em Dublin 6. Você que anda sem documento, que atropelou e machucou o turista.”

“O turista não se machucou, ele mesmo me disse.”

“Isso não interessa, se eu digo que sim, é sim. A polícia vai mover uma ação contra você, por direção perigosa.”

“Eu não sei do que você está falando. Não me lembro.”

“Roberta, você está brincando comigo???”

“Qual o seu nome, senhor? O seu número é B310, posso ver no seu uniforme, mas e o seu nome?

“Meu nome é Gerry.”

“Pois bem, meu advogado me disse que se não há vítima, não há crime de lesão. E quanto à direção perigosa, não sei do que está falando. A minha bike estava desligada, todos viram.”

Jesus amado, o que eu estava fazendo? 

 “Seu advogado?”

“Sim, advogado e ele é irlandês. O escritório dele é em Dublin 2.”

Sim, eu tinha perdido o juízo.

“Roberta, você me irrita demais, sabia? Eu vou te multar agora por infringir leis de trânsito, você está estacionada em local proibido, vem aqui.”

Nessa hora, ele me agarrou pelo braço e cruzou aos berros a avenida comigo, quase me arrastando.

Na boa, se eu estava ferrada, que tivesse uma razão. Fiz força contrária e gritei:

“SOLTA O MEU BRAÇO! NUNCA MAIS TOQUE EM MIM. VOCÊ NÃO TEM AUTORIDADE PRA FAZER ISSO.” 

O babaca olhou pra mim tão passado, que valeria até ter sido presa só por ter tido esse gostinho. Ele soltou o braço e começou a sussurrar, porque tinha muita gente parada, olhando:

“Vou acompanhar o seu caso de perto. E você vai ser presa, eu mesmo vou me encarregar. Vou te mandar uma multa e nem vou pedir seu endereço porque eu me lembro de cor.”

“Eu também vou me lembrar do seu número de cor quando eu conversar com meu advogado amanhã, Gerry.”

Pronto, assim se faz um inimigo. Viu como é fácil?

Eu subi na bike, tremendo dos pés à cabeça, mas com uma estranha sensação de… seria vitória? Eu estava nervosa? Sim, a beira de um ataque cardíaco. Incrédula? Com certeza, o doido lembrava meu nome, endereço de cor, me reconhecia mesmo com touca. Eu estava com medo? Não, nem por um minuto fiquei. Ia procurar a Embaixada do Brasil na Irlanda, reportar o que estava acontecendo- e agora tinha uma testemunha, era um brasileiro, mas era melhor do que nada.

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Na manhã seguinte, antes da escola, fui à Embaixada. Contei a história, pediram pra eu reportar por email, que veriam se, neste caso, a Embaixada poderia fazer alguma coisa. Acho curioso que a Embaixada é o único lugar onde recebemos “proteção” quando estamos morando em outro país. O lunático da polícia me fala: você vai ser presa, EU MESMO VOU ME ENCARREGAR DISSO e a Embaixada responde: vamos ver se podemos ajudar. Maravilhoso!

Eles nunca fizeram nada sobre o meu caso.  Nunca recebi resposta sobre o email.  Tive que conviver com o lunático muitas vezes durante o ano. Me recordo do dia em que ele passou gritando para todos os motoristas que “circulassem” e quando me viu, disse:

“Você não, Roberta. Você fica.” E pronto, mais ameaças.

A questão é que agora eu não tinha mais medo, eu enfrentava. Só ficava maluca porque quando ele me via, eu acabava tendo que guardar a bicicleta, porque ele sempre ameaçava aprender o rickshaw. Uma apreensão dessas é como ter o carro guinchado. A polícia transporta a bike para o estacionamento e a cada dia são cobrados 150 euros mais ou menos, até que ela seja retirada. Como eu não queria correr riscos, prefiria acatar e encerrar a noite.

Quarto encontro

Estava pedalando por uma rua, seguindo todas as Leis de trânsito quando Gerry, na viatura, pediu pra eu encostar. De novo esse diabo e o mesmo papo:  prisão, processo, intimação. 

Ele estava com um outro policial que também desceu do carro; perguntou se eu tinha licença para dirigir o rickshaw. Naqueles dias, havia saído uma matéria no jornal dizendo que finalmente estava aprovada a Lei que regulamentaria o trabalho do rickshaw como um táxi. – coisa que até hoje nunca aconteceu. Ele discursou sobre a natureza do trabalho e questionou o porquê o brasileiro do rickshaw se sente acima da Lei,  não colabora em nada com a Sociedade, não paga impostos, exercendo tantos trabalhos ilegais. Respondi algo que tinha ensaiado pra quando chegasse a hora:

“Senhor, somos mais de 20 mil estudantes brasileiros injetando a cada seis meses milhares de euros pra renovar o curso de inglês, pra obter documento, pagar aluguel e contas de consumo e horas de lazer. O imigrante salvou esta cidade.”

“O quê?” Gerry perguntou, com um risinho de deboche nos lábios. “O que você quer dizer com isso?”

“Que nós pagamos o seu salário, senhor.”

Lembro de ter pensado: Toma essa, seu filho da mãe miserável, racista maldito. Estou com essa resposta decorada e entalada na garganta há meses, desde o primeiro dia, quando você disse que eu era mais um Brasileiro idiota que deveria voltar para o meu país.  

Nessa hora, eu tive certeza de que finalmente esse policial cumpriria qualquer uma das muitas ameaças que já tinha me feito. O sorriso na boca de Gerry desapareceu instantaneamente e os lábios se comprimiram até virarem um risquinho na cara. Foi quando algo surreal aconteceu. Ouvimos uma voz vindo da calçada, alguém perguntando:

“Moça, está tudo bem aí?”

Eu e os dois policiais olhamos boquiabertos para aquele rapaz ruivo, visivelmente irlandês, que estava semi-alcoolizado e disposto a comprar uma “briga” com a Garda.

No way!!!!

Gerry ficou maluco. Partiu pra calçada furioso questionando o que ele tinha a ver com isso e gritando que ele estava obstruindo a Justiça. Esse cara estava mais bêbado do que aparentava, porque o que ele fez em seguida foi insano. Ao invés de responder, ele estendeu um rolo de papel higiênico para Gerry e disse:

“Sinto um cheiro de sujeira. Toma aqui, é pra limpar essa bagunça.”

Depois disso, B310 nem se lembrava mais do que EU tinha dito. Jogou o cara na parede, o revistou, pediu identidade e sei lá mais o quê. Não conseguia ouvir o que falaram, mas deve ter sido pesado. 

“Ele pode fazer isso?”- Perguntei pro outro policial que estava parado imóvel do meu lado. O cara engoliu seco e não  abriu a boca. Era óbvio que Gerry era uma “alta patente” ou algo assim e que até dentro da Garda, tinham medo dele.

Depois que ele se livrou do irlandês, voltou e disse que me multaria, pois eu estava com o fone pendurado no pescoço. Tomou meu documento e registrou meus dados. A nossa conversa de antes havia morrido, porque Gerry tinha sido envergonhado por um próprio irlandês. Tenho certeza de que se pudesse ele teria espancando o cara, bem ali na minha frente, só pra mostrar o quanto ele significava, e que eu não era nada.

No final das contas, depois de 2 anos, deixo aqui meu agradecimento ao irlandês ruivo e bêbado, que saiu de alguma festa levando consigo um rolo de papel higiênico embaixo do braço. 

Thank you. Você salvou a minha pele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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