De mãos frias e coração quente

Quando eu saí do conforto da minha casa e pus fim à rotina da minha vida para fazer um intercâmbio em outro país, estava disposta a abrir a cabeça. Esquecer velhos hábitos, fazer novos amigos, comer comida diferente, me adequar à outro trabalho são etapas que eu teria de enfrentar se quisesse chegar à algum lugar. O intercambista está sempre com as emoções à flor da pele, seja pela vida nova, pelo medo do desconhecido ou pela saudade de casa. Embora eu tenha passado poucas e boas durante o ano de 2016 quando vivi na Irlanda, a diferença entre ficar e desistir foram as pessoas que eu tive ao meu redor. Algumas se tornaram verdadeiros amigos e assim o são até hoje: colegas de trabalho que eram sempre mãos estendidas, professores incríveis que trocaram comigo cultura e aprendizado, passageiros especiais com quem compartilhei um pouco da minha história. No meio de tanta gente que ficou, algumas pessoas só passaram por mim mas, mesmo assim, me marcaram pra sempre. 

Dublin, 08 de abril de 2016

Lá estava eu, eufórica por mais uma sexta-feira, com Dublin cheia de turistas esperando para tomar meu táxi. Como de praxe, retirei a bike da garagem por volta de 10 horas da noite e fiz o caminho de sempre: desci pela avenida principal até o centro, voltei pela paralela e parei em um beco perto da rua de danceterias, onde atropelei o turista pela última vez (:s).  

Duas moças, por volta de 25-28 anos pediram que eu as levasse para uma balada a uns 15 minutos de lá. Elas estavam “alegrinhas”, sentaram na bike e durante o percurso começaram a cantar e a mexer com todos os pedestres, o que era perfeitamente normal. Uma delas gritava muito e tentava ficar em pé enquanto eu pedalava. Isso é perigoso, pra quem está são e, principalmente, pra quem está alcoolizado. Toda vez que ela tentava se levantar, eu diminuia o ritmo e pedia pra ela sentar. Isso se repetiu várias vezes até que em determinado momento, ela acabou chutando o selim onde eu estava sentada, metade do pé pegou no selim e a outra metade nas minhas costas. Isso me irritou muito; pedi pra ela se comportar, caso contrário, eu desistiria de levá-las. Ela, como toda boa patricinha, reagiu mal. Em um farol demorado, numa rua mais estreita, colocou o corpo todo pra fora e chutou a lateral de um táxi, com um salto bem fino de bota. Eu vi a cena toda, o motorista do táxi também. Fiquei desacreditada e quando me preparava pra iniciar uma discussão com ela, o motorista já estava descendo do táxi e vindo com 5 pedras na mão. Me lembro de ter berrado: “É comigo que você está gritando? Comigo? Você viu que foi ela quem chutou o carro!” E dele ter respondido: “Ela está bêbada, você é responsável pelo seu passageiro.”

Já comentei aqui sobre a péssima relação que o motorista de rick shaw tem com o motorista de táxi? É uma briga sem fim. Eles se julgam os donos da rua, por terem licença e, vez ou outra, nos atacam verbalmente. Também nos acusam de roubar os clientes deles e superfaturar o preço das corridas- o que não deixa de ser uma verdade.    

No momento em que ele desceu do carro e eu desci da bike, a confusão começou. E claro que as duas passageiras saíram pelo lado da calçada e desapareceram, me deixando lá com aquele ser raivoso e um risco visível na pintura do táxi.

Eu tentei dialogar, explicar que eu não tinha a menor culpa, mas era um caso perdido. O taxista estava convicto de que eu era responsável pelo “acidente” e que teria de arcar com a pintura. A questão é que aquela era a minha primeira corrida, eu costumava sair de casa com 10 euros em moedas pra dar de troco e só. Eu não tinha dinheiro pra pagar e ele não queria aceitar só as moedas. 

“Senhor, anote meu telefone e me dê o seu número. Nos falamos amanhã, vou até o senhor e lhe dou o dinheiro.”

Se a situação fosse outra, talvez ele tivesse aceitado receber o dinheiro depois, como acontece numa batida de trânsito normal. Mas eu era rickshaw, imigrante e, portanto, aos olhos dele, não era digna de confiança. 

“Não! Um de vocês já acertou meu táxi antes, ficou de me ligar e nunca ligou! Não vou tomar outro golpe. Se você não pagar agora, vou ligar pra polícia.”

Ter a polícia lá era tudo que eu não precisava, dados os últimos acontecimentos.

-Maldição, o que fazer?

Estava quase começando a chorar, quando apareceu uma moça. Ela estava com uma amiga, era morena, tinha o cabelo bem preto e usava uma blusa vermelha. Disse ao taxista que havia visto a cena e ouvido tudo e que a verdadeira culpada havia fugido. Perguntou a ele quanto mais ou menos seria o conserto daquele risco na pintura do carro.

“50 euros, acho.” Ele respondeu.

Ela abriu a bolsa, retirou a carteira e deu ao taxista uma nota de 50 euros dizendo que não havia motivos pra chamar a polícia. Até hoje, não sei explicar o sentimento que aquilo me gerou. Era mais que alívio, era uma sensação de estar sendo protegida, “lá de cima”.

O taxista agradeceu a essa moça e me pediu desculpa. Disse que também tinha que sobreviver, que tinha família pra sustentar. Enquanto ele manobrava o táxi e se retirava, eu olhei pra ela e a abracei. Uma total estranha. Que me estendeu a mão sem saber quem eu era, de onde vinha. Que me livrou de toda aquela confusão e, mesmo sem entender o porquê, me emprestou o dinheiro que ela usaria pra sair.

No dia seguinte, através do contato que trocamos, devolvi os 50 euros e prometi a mim mesma que nunca esqueceria a turista espanhola da blusa vermelha.

A torta da Matka 

Depois de um certo tempo trabalhando pelas ruas, todos os dias, você passa a conhecer gente e ser reconhecido. Em Dublin há muitos artistas de rua, especialmente músicos. Perdi as contas de quantas vezes parei minha bike pra ouvir um senhor que tocava teclado e só cantava Pink Floyd.  Ele até já sabia a minha favorita, “Money”.

Mas, entre todas as pessoas que eu quase sempre encontrava durante a madrugada, uma foi especial. A primeira vez que tivemos contato um com o outro começou com uma buzinada monstra que levei enquanto estava descendo uma rua: ele colou na minha traseira feito cena do Exterminador do Futuro 2 só que ao invés da moto com o John Connor era eu e o meu rick shaw e ao invés do exterminador era o caminhão de lixo de Dublin. No volante, o cara que me perturbava com a buzina. No banco ao lado, o auxiliar, um rapaz de uns 35 anos, muito loiro, com pele avermelhada, que sempre ria e acenava pra mim.

O tempo foi passando e o moço auxiliar passou a me cumprimentar, esticando o braço pela janela pra tentar pegar na minha mão. Às vezes, o caminhão diminuia a velocidade e ele me perguntava se estava tudo bem, se a noite estava rendendo bons clientes; conseguíamos trocar algumas palavras aos berros, ele do caminhão, eu sentada na bike.  

Foi assim, gritando um pro outro que ele me contou que era polonês. Havia se mudado pra Irlanda muitos anos atrás, pra fugir de uma crise econômica em sua cidade natal. Trabalhava como auxiliar no caminhão de lixo, esperando a chance de ser promovido para trabalhar no escritório. 

Em uma noite com garoa gelada, ouvi a buzina característica do caminhão com meu amigo polonês dentro. Eu estava cruzando uma rua e eles realmente me encurralaram. Eu me assustei de verdade, achei que fossemos bater. Reclamei com ele:

“Pelo amor de Deus, eu quase tive um ataque cardíaco!”

E ele respondeu rindo: “Eu tenho um ataque cardíaco toda vez que eu te vejo!!!”

(palmas)

Ele perguntou se eu estava com fome e me ofereceu um pedaço de doce. Disse que era um bolo muito tradicional na Polônia, e que fora feito por uma mulher, Matka. Fiquei meio sem graça de aceitar, não queria deixá-lo sem. Mas me lembrei de que as pessoas de outros países sempre aceitam quando lhe oferecem algo e que recusar é considerado falta de educação em muitos lugares. Aceitei. Era uma espécie de pão de ló açucarado com passas e nozes. Delicioso. Eu estava morta de fome.

Uma semana depois, encontrei com o caminhão outra vez, e comi de novo o bolo feito por Matka. Ele disse que havia levado bolo extra, para caso me encontrasse. Aquilo encheu meu coração de alegria, não consigo dizer o porquê foi tão importante.

Ele passou a levar bolo a mais sempre. Em dado momento, comecei a esperar pela hora de, quem sabe, encontrar o caminhão de lixo para junto dos meus dois novos amigos comermos o bolo de passas. Cheguei a perguntar se a Matka era irlandesa. Ele me olhou esquisito, riu e respondeu dizendo que não. Eu sabia que não devia ficar perguntando, já que ele próprio não comentava nada sobre a mulher; além do mais, faláva mos só por 3 ou 4 minutos e sempre aos gritos.

Uma das noites, porém, não me contive: perguntei o que Matka pensaria se descobrisse que parte do bolo que ela fazia era dado pra mim.  E ele respondeu:

“Ela faz pra vender.”

“Hum… e não fica brava de saber que você não me cobra?”

“Não, minha mãe sabe que é pra você.”

Oh Meu Deus…

“Matka… é a sua mãe?”  

“Matka significa mãe em polonês. A minha matka chama-se Anna.”

Naquele momento de vergonha, decidi que faria algo pra agradecer. Era Natal, passei durante a semana na loja de produtos brasileiros e comprei dois saquinhos com brigadeiros; eram divinos, daqueles com gosto de “panela” mesmo.

Carreguei os doces comigo por várias noites. Até que, em uma delas, avistei o caminhão de lixo descendo a rua, ainda longe de mim. Então, corri pra dentro do Centra, que é uma loja de conveniência aberta 24 horas e comprei café quente pra eles. Eles não tiveram tempo, nem puderam parar. Entreguei os cafés e pedi ao polonês que levasse os brigadeiros pra sua matka, explicando que aquele era um tradicional doce brasileiro e que eu lhe desejava um Feliz Natal.

Nos despedimos com o toque de mão de sempre.  

Aquela foi a última vez que o vi. Cheguei a avistar o caminhão novamente na minha última noite de trabalho com o rick shaw,  mas era outro rapaz ao lado de um outro motorista. Gosto de pensar que ele conseguiu a promoção que esperava e que Dona Anna não precisou mais cozinhar pra fora.

Eu jamais soube o nome dele. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 comentários em “De mãos frias e coração quente

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  1. Essa alegria é aquele valor que damos às pequenas atitudes que nos enchem de carinho é que mostram que não estamos só. Uma delícia de sensação. Um pouco que podemos fazer com amor é muito especial ♡

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