Dormindo com o inimigo_parte 2

Peter era um homem estranho. Além de um sotaque impossível de entender sem uma leitura labial, estava sempre encarando tudo, falando com um sorriso de canto de boca e sempre, sempre dizendo algo desagradável; realmente não sei se era pra ofender ou se ele era só um idiota. Me recordo de um dia que reclamou pra mim do odor forte que vinha do quarto de uma das inquilinas. Disse “se o quarto fede desse jeito, imagina como deve ser o cheiro dela”. Eu apenas me retirei. Quem me conhece bem, sabe que calma não é uma das minhas virtudes. A partir desse dia, passei a evitar todo tipo de contato, antes de falar alguma coisa que me pusesse no olho da rua.

Meu quarto ficava ao lado esquerdo, imediatamente depois da porta de entrada (como mostra a foto principal), não havia quintal ou garagem. Quando chegava do trabalho, de madrugada, a primeira coisa que eu fazia ao entrar era olhar para o chão e ver se ali estavam o par de sapatos sociais de Peter. Se sim, o homem estaria roncando na cama debaixo do meu beliche. Eu já deixava meu pijamas e tudo o que poderia precisar no banheiro para não acender a luz do quarto, deitava e no dia seguinte, ao acordar, ele já não estava mais. Eu bem que poderia dizer que de manhã, Peter acendia a luz, fazia barulho, entrava e saía do quarto dez vezes, batia as portas e era um inferno…mas não. Ele nunca deu um pio ou fez qualquer coisa que pudesse me incomodar. Quanto a isso, não tenho do que reclamar.

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A parte do diabo

Mas ele era um homem cuja presença me incomodava muito.  Talvez porque aquela era minha primeira vez que eu tinha de conviver com um estranho ou talvez porque suas intenções haviam ficado claras desde o dia em que visitei a casa. Talvez fosse o primeiro motivo com o segundo motivo e mais o fato dele dormir uma vez por semana na cama debaixo,  de cueca.

O fato é que sempre que eu chegava e via aquele par de sapatos, tinha vontade de voltar pra rua. Depois de algum tempo, passei a identificar da esquina o carro dele estacionado na porta. Era quase como caminhar pra forca.

“Mas, Roberta, por que você continuava lá?” –Você deve se perguntar.

Já falei aqui mais de uma vez que eu adorava aquela casa; pra mim, o sobrado velho, rangendo por todos os lados me dava uma sensação de estar no Brasil.  A rua de casa era pequena e sem saída, muito silenciosa pra dormir, mas mesmo assim não era isolada. A 1 km de distância havia um parque pequeno, frequentado por famílias e seus cães, ótimo pra relaxar. Necessidades do cotidiano como mercado, farmácia, shopping, lojinhas e até alguns bares bem legais estavam a pouco mais de dez minutos. E não só isso, o bairro era nobre, livre dos nanás e, portanto, de pequenos crimes que eles cometiam. Tudo isso por um valor de aluguel muito bom; era impossível achar algo sequer semelhante pelo mesmo preço.

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A escada pro banheiro, que seria um set perfeito de ‘Invocação do Mal’

Compondo o quadro, haviam meus flatmates. A menina da Alemanha era quieta e educada e as moças da Croácia, em pouco tempo, se tornaram muito queridas pra mim. Uma delas, acordava pra sair pro trabalho quase na mesma hora em que eu chegava do meu. Eu abria mão do banho porque o boiler, sistema que aquecia a água, demorava uns 25 minutos pra encher totalmente com água quente após esvaziar, ou seja, se eu tomasse meu banho, ela ficaria sem água quente para o dela ou teria que aguardar esses 25 minutos. Por isso, eu lhe dava prioridade. Em compensação, de final de semana quando elas sabiam que eu chegava 6,7 horas da manhã do trabalho nunca ligaram o som ou a máquina de lavar barulhenta ou o aspirador de pó, pra que eu pudesse descansar até mais tarde. Isso tudo nunca foi falado, foi feito. O idioma era outro, o contato era pouco, mas o respeito era muito. Na escola, eu ouvia histórias tenebrosas de brasileiros que passavam muitos apuros com os “colegas” de casa: coisas furtadas, comida revirada ou também furtada, incômodos a noite, brigas, polícia batendo na porta atrás de drogas, pessoas que traziam “ficantes” de baladas pra dentro do quarto sem avisar etc etc etc. 

Peter era um preço pequeno a pagar, diante de todo esse cenário de sorte.

Exceto porque ele era mesmo um filho da mãe miserável.

Aumento ou rua

Vivi o mês de março nesta casa, pelo preço de 220 euros.  Esse foi o valor oferecido quando visitei a casa e mantido até o final do mês, quando Peter me avisou de um aumento. Segundo ele, um motorista de rick shaw ganha uns 100 euros por noite e poderia pagar mais pela casa que mora.

“Da onde você tirou que um motorista de rickshaw ganha isso?” eu questionei.

“Eu perguntei pra um deles, algumas noites atrás”

Mas eu mereço mesmo.

O fato é que Peter aumentou meu aluguel da noite para o dia em mais 230 euros.  Pode acreditar.  Se eu tivesse um contrato ou alguma papelada oficial isso seria proibido, mas eu não tinha. Tinha apenas um recibo assinado por ele, com o mês vigente e o valor. Ele poderia aumentar o quanto quisesse que eu não poderia fazer nada.

A conversa foi bizarra:

“Peter, se eu ganhasse 100 euros por noite moraria sozinha, não aqui com você! Quem te disse isso, mentiu.”

“Ah, Roberta, você tem condição. Você tem pais, namorado. Eles podem te ajudar.”

“Mas eles têm a vida deles no Brasil, eu tenho a minha aqui. Não me mudei pra eles me sustentarem. Você está pedindo mais de 100% de aumento, é um absurdo!” 

“Pois é este o valor a partir de agora. Se você quiser, ótimo; se não, procure outro lugar.”

“Você faz ideia de como é difícil mudar pra outro país? Estou lutando aqui, trabalho feito um cão no frio e na chuva. Você me cobrou 220 euros mês passado, agora me cobra 450. Como é que eu fico?”

“Roberta…Eu não dou a mínima.”

E riu. 

Se eu pudesse teria arrancado a cabeça dele do pescoço, mas não podia.

Busca implacável

Graças a esse lixo de ser humano, comecei a procurar outro lugar pra morar. Voltei àquela rotina de acordar cedíssimo e manter contato com Deus e o mundo perguntando por vagas. Tudo que achava era uma droga; casas minúsculas com muita gente dividindo, algumas muito longe da escola o que acrescentaria o valor do ônibus, outras muito longe da garagem onde eu mantinha o rick shaw. Quartos compartilhados com 3 pessoas ou mais. Os lugares regulares eram caros; os lugares bons, impossível de pagar. 

No meio disso tudo, havia um outro detalhe que transformava a busca por vagas em um verdadeiro martírio. Já disse 1483 vezes que Dublin é repleta de brasileiros; alguns moram na cidade há muitos anos, ou porque conseguiram visto de trabalho, ou tem passaporte europeu, ou estão mesmo ilegais.  O fato é que muitas vezes isso “concede” o direito a esse brasileiro de ser um tremendo son of a bitch. As pessoas que moram na casa fazem um verdadeiro processo seletivo com os interessados pela vaga, às vezes coisas como fazê-los esperar por horas, até mesmo do lado de fora da casa até que a entrevista comece, ou mostram a casa para um monte de gente junta, fazem perguntas indecentes ou ridículas. Os brasileiros com uma vaga se sentem os reis da cocada preta, eliminando este e aquele até que “wow, escolhem o vitorioso”. Passei por dois processos assim. Num deles, o brasileiro com quem eu dividiria a vaga perguntou se eu fumava maconha. Disse que era meio requisito já que ele fumava dentro do quarto. No final da entrevista, me considerou meio “caretinha”, segundo suas palavras. Uma outra garota perguntou se eu gostava de carne. Quando respondi que –sim, muito- ela disse que então, não daria certo, porque ela como vegana se incomodava com o cheiro de morte e também queria compartilhar o quarto com alguém que tivesse os mesmos valores morais que ela. (valores morais, ahaahahhahahaha, meu Deus).

As histórias de terror sobre contratos abusivos também aumentavam: proprietários irlandeses que proibiam namorados(as) ou amigos na casa, que revistavam geladeiras para descartar bebidas alcoólicas, que mantinham uma cópia da chave de cada quarto para entrar neles quando quisessem, que mandavam embora inquilinos por alguma rixa ou diferença de opinião, que não devolviam depósitos, que anunciavam a venda do local e todos tinham de se mudar às pressas etc etc…

Depois de saber disso tudo, pesquisei, analisei o que tinha ouvido e visto nas ofertas de vagas, assim como as estimativas de aluguel. Era um tremendo incômodo Peter naquele quarto? Era. Mas era uma vez por semana, eu tinha o espaço quase que só pra mim, tinha as minhas coisas do meu jeito e como queria. Refleti muito e tomei uma decisão.

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minhas tranqueiras do meu jeito

Uma semana depois de fazer sua proposta, Peter veio com seu corriqueiro “Hello, Roberta”  questionando se eu ficaria ou se já estava me mudando. Sempre com aquele sorriso no canto da boca que me fazia querer moer aquela cara na porrada.

Tirei da bolsa 400 euros e entreguei na mão dele. Quando ele contou, disse que estava faltando 50 euros. Eu disse que não.

“Você pediu 450 euros, eu ofereço 400 que está totalmente de acordo às condições aqui. E você vai aceitar. Caso contrário, vou denunciar você e esse esquema de sublocar a casa pra 4 pessoas infringindo as Leis Imobiliárias, sem contrato, sem pagar os devidos impostos e sem oferecer às condições necessárias de segurança aos inquilinos como é obrigatório, tais como dois tipos de extintores de incêndio, saída de emergência, aquecedores novos e embutidos dentre outros.

Xeque.

Peter olhou pra mim por uns 4 segundos, guardou o dinheiro no bolso da calça e respondeu: “Very well, Roberta, vou dar o seu recibo.”

Xeque-mate.

Chegadas e partidas

Durante o mês de abril, achei que as coisas em casa estavam finalmente estabilizadas. É claro que depois de nossa última conversa amigável, Peter apenas me cumprimentava e falava uma ou duas coisas sobre o funcionamento da casa, o que pra mim era perfeito. Aquela simpatia forçada que sempre me incomodara finalmente havia desaparecido e o sorrisinho também.

Só que a minha tranquilidade durou apenas algumas semanas. A moça alemã voltaria para seu país assim que acabasse o curso e as meninas da Croácia anunciaram que iriam se mudar. Uma dali a alguns dias e a outra um pouco depois. Portanto, Deus sabe o que estaria por vir com novos inquilinos. Com isso, Peter começou a aparecer em casa com mais frequência e me colocou na posição de receber os interessados nas vagas tão logo elas estivessem disponíveis online. Eu no papel do “brasileiro empoderado”, que piada!

Quando o anúncio foi publicado, várias pessoas começaram a aparecer, de muitos países diferentes. Eu fazia algumas perguntas simples, mostrava a casa, falava um pouco de mim, oferecia um chá. Um rapaz me disse que nunca havia sido tão bem recebido na busca por uma vaga. Era incrível o quanto essas pessoas estavam tensas na visita. Gaguejavam, davam respostas meio prontas- quase ensaiadas. Procurar vaga de um mísero quarto em Dublin é como concorrer a uma vaga de emprego dos sonhos.

Brincadeiras à parte, a situação de moradia é mesmo um caso bem sério que deveria ser estudado mais a fundo, quem sabe na tentativa de evitar tantos problemas; problemas que a agência não te expõe quando você compra seu pacote. Conheci pessoas que moravam em hostels, pois não encontraram lugar decente pra viver, casais que foram obrigados a morar separados porque as vagas duplas têm preços exorbitantes, conheci também estudantes que adoeceram de stress e gastaram tudo que tinham com médicos e medicamentos e outros que, sem ter onde morar, tiveram que antecipar a volta pra casa, dando por encerrado o sonho do intercâmbio.

Na casa onde eu morava não seria eu a decidir quem ficaria com a vaga, aquela era só uma “triagem”, segundo Peter. Eu apenas torcia para que nenhuma injustiça fosse feita-eu bem sabia o tipo de proprietário que ele era. Se pudesse opinar, eu preferiria que fosse alguém de outro país, assim praticaria o inglês dentro de casa como vinha fazendo e aprenderia sobre uma nova cultura.

Mas um dia abri a porta e lá parado, do lado de fora, estava alguém por quem me apaixonei.

(continua)

 

ps. Não tinha mais fotos, então… 🙂 

 

 

 

 

 

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